Nem só de dança vive um aposentado

A idéia de velhice é como um queijo suíço. O termo, cunhado há 50 anos nos Estados Unidos, está diretamente relacionado à aposentadoria e às doenças. Morria-se bem mais cedo naquele tempo. Velhice também é sinônimo de morte, solidão, tristeza e abandono.
Para a professora Anita Liberalesso Néri, tratar desse tema era um tabu quando iniciou seus estudos na Faculdade de Educação (FE) da Unicamp.
Hoje, após 20 anos de pesquisa, a gerontologista da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) é referência no campo do envelhecimento. “Tudo está na cultura”, afirma.
De acordo com dados apresentados pela professora durante a palestra “Velhice bem-sucedida: uma agenda para os indivíduos e para sociedade”, realizada terça-feira (15) na SBPC, a ciência já reconhece as limitações físicas e a prevalência das doenças genéticas como barreiras para uma velhice saudável. Entretanto, o grande diferencial hoje em dia é a capacidade dos idosos resistirem ou recuperarem-se de eventos considerados por eles como estressantes. “O que aparece em nossa pesquisa, realizada com 900 idosos, é a espiritualidade como fator de compensação pelas perdas ocasionadas durante a vida”, comenta Anita.
A pesquisa mostra, também, que o idoso é preocupado com o bem-estar das futuras gerações e da sociedade. Por isso, segundo dados do IBGE, 62% dos idosos são chefes de família e 20% ainda trabalham. “Nossa sociedade cobra muito e faz pouco pelo idoso. Não se envelhece quando aparece a primeira ruga”, diz Anita.
A pesquisadora deixou para o público presente uma lista do que as instituições podem oferecem aos idosos, como por exemplo, atendimento domiciliar, reabilitação física e cognitiva, apoio educativo e psicológico, planejamento e intervenções no ambiente e até asilos. Na opinião de Anita, ao afirmarem que o idoso é responsabilidade da família, mídia e governo fazem um discurso maniqueísta. “A não ser que morramos antes, a velhice é a condição final da vida. Precisamos entender o que isso significa e nos preparar emocional, social e economicamente para essa fase da vida que não é só festa, dança e maratona”, diz.

Comentários