Periodontite pode afetar sistema cardiovascular, demonstra estudo

Na literatura, sabia-se que a periodontite crônica, também conhecida como doença periodontal, tinha uma repercussão negativa na saúde sistêmica do indivíduo, com alguns relatos de focos dessa doença em artérias e articulações. Mas não havia propriamente prova consubstanciada sobre isso. Também pairava uma dúvida se, nos pacientes com periodontite, as bactérias que provocavam essa doença tinham condições de se deslocar da gengiva infeccionada para se alojar nas artérias do sistema cardiovascular, principalmente nas coronarianas.

Estudo desenvolvido na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) indicou que as periodontites crônicas graves podem alterar o perfil lipídico dos seus portadores e levar a eventos coronários agudos. E mais: ficou claro que os micro-organismos presentes nas bolsas periodontais (também bolsas gengivais) podem penetrar o epitélio gengival contaminado, ganhando acesso à corrente circulatória e alojar-se nas placas ateromatosas (ateroma vascular). Estas conclusões integram a pesquisa de doutorado do periodontista Fernando José de Oliveira, orientada pelo professor Reinaldo Wilson Vieira, docente do Departamento de Cirurgia da FCM. O autor analisou as proteínas plasmáticas e o nível de gordura no sangue – as lipoproteínas séricas – de 181 pacientes atendidos na Unidade Coronariana do Hospital de Clínicas (HC) no período de 2000 a 2006.

Dessa amostra, todos indivíduos eram diagnosticados por eletrocardiografia e/ou angiografia, onde de 17 pacientes que seriam submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio foram obtidos os fragmentos das artérias torácica interna e coronárias durante o transoperatório. Estas artérias passaram por uma análise para a possível detecção do DNA bacteriano por meio de técnicas de biologia molecular. Tal avaliação foi efetuada no Laboratório de Patologia Clínica do Hospital de Clínicas (HC) e acompanhada pelo especialista na Disciplina de Cirurgia Cardíaca e Cardiologia.

Observou-se que aproximadamente 60% das artérias coronárias tinham sido infectadas por micro-organismos resultantes das periodontites crônicas e constatou-se que a periodontite normalmente promove alteração nas lipoproteínas e no colesterol total dos indivíduos. Enquanto as LDL, as lipoproteínas de baixa densidade (mau colesterol), ficam elevadas, o HDL, ou lipoproteínas de alta densidade (bom colesterol), mostram-se reduzidas. No estudo, o DNA bacteriano periodontal foi detectado em 10 (58,8%) das 17 artérias coronárias pesquisadas, número considerado significativo para a amostra estudada. Segundo Oliveira, quanto mais grave a periodontite, maiores alterações foram percebidas no colesterol total como também nas lipoproteínas, termo empregado para definir uma família de partículas cuja finalidade é transportar lipídeos, sobretudo triglicérides e colesterol, entre órgãos e tecidos.

Além do mais, foram encontradas alterações na resposta imunológica inata, com aumento de leucócitos sanguíneos nos pacientes com periodontite crônica grave. Sem exceção, conta Oliveira, todos os pacientes avaliados apresentaram como doença de base as cardiopatias isquêmicas, isto é, síndromes isquêmicas agudas. Sexo masculino, hipertensão, idade avançada, obesidade e raça branca apresentaram correlação com a prevalência da periodontite crônica.

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